"Não há vontade política para reabrir o processo"

Gonçalo Amaral afirma que as autoridades quiseram abandonar o caso Maddie

por Duarte Levy no 24 Horas

Numa entrevista gravada em Vigo, Espanha, em Outubro do ano passado, mas só agora revelada, o ex coordenador da PJ, Gonçalo Amaral, acusa as autoridades portuguesas de não terem vontade política para reabrir o processo e as investigações ao desaparecimento de Madeleine McCann.
“A vontade política não é nenhuma, não há vontade política para reabrir,” acusou o antigo responsável pelas investigações acrescentando que “quando se arquiva um processo deste tipo, com tantas diligências por tratar, com tantos factos que tinham de ser esclarecidos, é porque não havia vontade de continuar com a investigação e isso foi nítido quando saímos da investigação no dia 2 de Outubro”.
Para Gonçalo Amaral, houve uma clara intenção das autoridades portuguesas em abandonar as investigações e “agora será muito difícil o processo ser reaberto”.
Na entrevista, disponível em vídeo na internet (http://joana-morais.blogspot.com), Gonçalo Amaral denuncia a existência de “situações no processo não foram tidas em conta, que nem foram lidas ou conhecidas por quem tinha o dever de conhecer,” sublinhando que a declaração do casal de médicos ingleses que se referem a umas férias em Maiorca, onde se dão conta de “gestos e palavras a indiciar a existência de um abusador de menores” naquele grupo de pessoas que estavam a passar férias” não foram tidas em conta antes de o processo ter sido arquivado.
Para Gonçalo Amaral, os responsáveis do ministério público não devem ter lido os detalhes do processo, acrescentando que ele “não acredita que tivessem lido tais declarações e tenham passado por cima disso”.

Ingleses acusados de bloqueio

O autor de “Maddie : A Verdade da Mentira”, livro de sucesso que continua sem ser editado em Inglaterra, a propósito da colaboração com as autoridades britânicas, acusou ainda o “topo da hierarquia da polícia inglesa” de ter bloqueado o avanço das investigações.
Segundo o ex PJ, no terreno, a colaboração com os oficiais ingleses “foi muito estreita, muito intensa,” mas as coisas não avançavam quando se chegava à hierarquia.

Caso confidencial em Inglaterra

Durante o inquérito ao desaparecimento de Madeleine McCann, os polícias ingleses foram “convidados” a assinar um documento de confidencialidade que os impede ainda hoje de falarem sobre o que se passou em Portugal ou em Inglaterra, um procedimento que não é normal na polícia inglesa. “É normal nos casos de serviços secretos, e esse documento assina-se logo que se começa. Agora com a polícia de investigação criminal, isso não acontece,” disse Amaral.
O ex coordenador do DIC da Policia Judiciária de Portimão vai mais longe e lembra que foi Stuart Prior, um dos mais importantes responsáveis da policia inglesa enviados a Portugal, quem disse, a propósito dos indícios recolhidos contra os pais de Madeleine, que “com muito menos já tinha detido pessoas em Inglaterra”.

Duarte Levy

As muitas baixas no caso da menina raptada no Algarve

(Publicado na edição de hoje do 24 Horas)

A investigação ao desaparecimento de Maddie, para além da sua enorme mediatização no mundo inteiro, ficou marcado por um número importante de baixas entre os diplomatas e policias que participaram ou tocaram neste caso tão sensível.
Em Portugal, depois da saída de Gonçalo Amaral, afastado das investigações ao caso Maddie a pedido das autoridades britânicas, da Policia Judiciária (PJ) saiu ainda o então director nacional, Alípio Ribeiro, bem como diversos outros inspectores.
Guilhermino Encarnação, director nacional adjunto, responsável pela Directoria de Faro no momento da desaparição de Madeleine McCann, poderá ser a próxima baixa confirmada neste caso. O homem que ficou conhecido na investigação por ter impedido Gonçalo Amaral de proceder ao interrogatório de Kate McCann num momento em que esta estava, segundo os vários inspectores presentes no local, “pronta para falar”, encontra-se de baixa prolongada por motivos de saúde e não vai voltar mais ao activo.
Não obstante os problemas de saúde do ex-director, uma fonte interna da PJ no Algarve avança que Guilhermino Encarnação só terá entrado de baixa após as declarações de um antigo detective privado espanhol revelando a existência de uma “toupeira” no interior da PJ que teria fornecido, durante meses, informações à agência Método 3 que trabalhava para os McCann.
Segundo as declarações do antigo operacional da Método 3, confirmadas aliás por uma fonte da PJ, a “toupeira” não seria o director da PJ em Faro mas sim um seu próximo e protegido.
Também do lado britânico caíram alguns diplomatas e policias, de entre eles o embaixador e o cônsul em Portugal, respectivamente John Buck e Bill Henderson.
O embaixador John Buck foi substituído a 10 de Setembro de 2007, no dia seguinte à constituição de Kate e Gerry McCann como arguidos. Um mês mais cedo, em Agosto do mesmo ano, já o cônsul no Algarve, Bill Henderson, se tinha demitido abandonando completamente a carreira diplomática. A sua substituta, Célia Edwards, acabaria também por não ficar muito tempo em Portugal.
Do Foreign Office também saíram Sheree Dodd e Clarence Mitchell, a primeira para responsável da comunicação do parlamento inglês e o segundo, para porta-voz oficial do casal McCann, mantendo no entanto, durante algum tempo, uma “relação privilegiada” com o governo britânico.

Duarte Levy

Espiões no caso Maddie

(Publicado hoje no jornal 24 Horas)
Os ingleses não mostraram aos polícias portugueses as imagens, no dia de desaparecimento de Maddie, dos satélites que apontam ao Algarve. Disseram que, por coincidência, nessa altura os satélites estavam todos virados para Marrocos. E a polícia inglesa declarou agora que na investigação McCann estarão envolvidos os serviços secretos.


Em Maio de 2007, alguns dias depois de Maddie ter desaparecido, um alto responsável do Departamento de Investigação Criminal (DIC) da Policia Judiciária (PJ) pediu aos colegas ingleses enviados à Praia da Luz para ter acesso às imagens dos satélites que vigiam a zona algarvia.
Se o pedido em si podia ser considerado como normal pois, no passado, as imagens satélite já serviram para ajudar as autoridades a solucionar um ou outro caso, a resposta surpreendeu. Segundo os “especialistas” enviados pelo governo britânico a Portugal, à hora a que Madeleine McCann foi levada do apartamento 5A do Océan Club, todos os satélites estavam virados para as costas marroquinas.
Uma “coincidência” infeliz que acabaria por surpreender os homens da PJ quando, meses mais tarde, viram os mesmos “especialistas” defender a tese do rapto de Madeleine para Marrocos, apoiada nomeadamente pelas declarações fantasistas de uma agência de detectives espanhola, a Método 3, que, em declarações públicas, até dizia saber quem tinha levado a menina, porquê e como, prometendo mesmo o seu regresso a casa antes do Natal.

Um caso de Estado

Mas o caso dos satélites virados para o “lado errado” não é único. Em Inglaterra, a polícia do Leicestershire, em resposta a um pedido de um jornalista britânico, ao abrigo de um decreto que regula o livre acesso à informação, recusou-se a explicar se o recurso a escutas telefónicas e intercepção de correio electrónico no âmbito das investigações ao caso Madeleine McCann estaria coberto, ou não, por um mandado.
Segundo o jornalista Jon Clements, a polícia, depois de ter protelado a sua resposta durante vários meses alegando necessitar de consultar outras “Agências”, respondeu que não tinha obrigação de explicar em que termos foram utilizados quaisquer meios de vigilância no caso Maddie, por razões de “segurança nacional”.
A polícia do Leicestershire explicou ainda ao jornalista que estava igualmente dispensada de lhe responder, porque a explicação poderia estar relacionada com outros “organismos de segurança”, o que, de acordo com o decreto que regula o livre acesso à informação, significa os diversos organismos dos serviços secretos, tipo MI5, MI6, GCHG, SOCA ou as Forças Especiais.

Nem Sócrates os assustou

O desaparecimento de Madeleine McCann mereceu, desde o primeiro momento, uma atenção muito especial por parte das autoridades britânicas: um gabinete de crise especialmente dedicado ao apoio ao casal McCann foi criado no seio do Foreign Office ainda antes da chegada ao local dos primeiros inspectores da Policia Judiciária.
A importância dada pelo governo britânico ao casal McCann ultrapassou todas as expectativas e mesmo os elementos dos serviços secretos de Sua Majestade que se deslocaram a Portugal, acabaram por se mostrar surpreendidos com a facilidade com que Kate e Gerry McCann entravam em contacto com Tony Blair ou Gordon Brown.
O empenho do governo britânico foi tal que nem a intervenção pública do primeiro-ministro português, José Sócrates, pedindo aos políticos para não interferirem nas investigações ao desaparecimento de Maddie, conseguiu convencer os ingleses de deixarem a PJ trabalhar em paz.

(Ler versão completa em português )

Duarte Levy

Sara Sofia tem 3 anos e foi raptada pela mãe há mais de um mês

Sistema de Alerta de Rapto de Menores só arranca em Março e por agora os meios de informação e comunicação utilizados pelas autoridades permanecem os mesmos que existiam antes do caso Maddie

Apesar de o caso ser encarado pela Policia Judiciária (PJ) com a mesma seriedade que um desaparecimento, Sara Sofia Lopes dos Santos, de três anos de idade, desapareceu no primeiro dia de 2009 no quadro de um rapto parental.
De acordo com uma informação do Departamento de Investigação Criminal (DIC) da PJ em Portimão, Sara terá sido raptada pela sua mãe e encontra-se no estrangeiro, provavelmente em Espanha onde os investigadores tentam localizá-la com a colaboração das autoridades do pais vizinho.
Segundo a mesma fonte, desde a separação do casal em 2007 que os pais de Sara mantêm um conflito acerca do exercício do poder parental da criança, que estaria oficialmente confiada ao pai, que acusa a mãe de abandono da criança. Versão diferente tem a mãe de Sara e seus familiares, que acusam o pai de maltratar a criança, facto que nunca foi provado.
Apesar de o rapto de Sara ter ocorrido no dia 1 de Janeiro de 2009, só agora a informação foi colocada no site da Policia Judiciária na internet (www.policiajudiciaria.pt), onde figura uma fotografia recente da criança.
De acordo com as informações agora relevadas pelo DIC da PJ em Portimão – o mesmo que foi responsável pela investigação ao desaparecimento de Madeleine McCann -, Sara Sofia estava vestida, na última vez em que foi vista, com um fato de treino cor-de-rosa da marca Nike e calçava sapatilhas da mesma cor.
A menina, de nacionalidade portuguesa, tem olhos e cabelos castanhos e, como sinal distintivo, apresenta nas costas, na zona lombar, um sinal vermelho.
Segundo uma fonte da PJ em Portimão, não existe qualquer ligação entre a desaparição de Sara Sofia e o caso Madeleine McCann, mas os investigadores receiam ver o seu trabalho afectado pela intervenção dos meios de comunicação ingleses, já que o facto de ambas as crianças terem a mesma idade e terem desaparecido numa zona geográfica relativamente próxima “vai, de certeza absoluta, ser aproveitado para relançar a mediatização do caso Maddie e concentrar a atenção no Algarve, afastando assim as suspeitas do casal McCann”.

Imprensa inglesa associa desaparição de Sara ao caso Maddie

A informação do desaparecimento de Sara Sofia teria passado completamente despercebida em Inglaterra, não fosse a intervenção de uma fonte próxima das autoridades britânicas e do casal McCann que, de maneira não oficial, alertou alguns jornalistas sublinhando o facto de a investigação estar sob a responsabilidade do DIC da PJ de Portimão, o mesmo que investigou o caso Maddie.
Na informação dada aos jornalistas não consta sequer uma linha acerca da possibilidade de um rapto parental, e a tónica é colocada no facto de Sara Sofia ter a mesma idade que Madeleine McCann e de ter desaparecido “misteriosamente” no Algarve, a mesma região geográfica de onde desapareceu a criança britânica em Maio de 2007.
Segundo a informação fornecida aos jornalistas ingleses, o desaparecimento de Sara Sofia na região sul de Portugal seria a prova da eventual existência de um predador, facto que a polícia portuguesa tinha excluído no caso de Madeleine.

Portugal adopta o modelo de Sistema de Alerta francês

A partir do próximo mês de Março, o desaparecimento de menores em Portugal vai passar a contar com um sistema de "Alerta Rapto" que, através de mensagens a cada 15 minutos, divulgam o caso e solicitam informações nas mais diversas plataformas, desde rádios locais aos terminais de transportes públicos.
O sistema adoptado no nosso país segue o modelo francês denominado "Alerte Enlèvement" que, em diversas ocasiões, já provou a sua eficácia no terreno.
A versão portuguesa estudada pelo Ministério da Justiça conta com os órgãos de comunicação social que adiram ao projecto e que, durante as primeiras três horas após o desaparecimento do menor, vão divulgar uma mensagem de alerta única, que pode ser de carácter local, regional ou nacional.
Tal como acontece em França, a decisão de lançar o alerta será tomada pelo procurador-geral da República (PGR) em conjunto com a PJ através de um "Gabinete de Crise", em caso de rapto ou sequestro, não contemplando ainda os casos de rapto parental ou simples desaparecimento.
Já em Novembro do ano passado, o Ministro da Justiça, Alberto Costa, havia assegurado que o sistema de “Alerta Rapto” estaria disponível rapidamente, sublinhando no entanto que para o sistema poder funcionar seria necessária uma melhor colaboração entre o Ministério Público (MP) e a Polícia Judiciária (PJ).

Duarte Levy

Maddie é um caso de segurança nacional

(Actualizado)
Os ingleses não mostraram aos polícias portugueses as imagens, no dia de desaparecimento de Maddie, dos satélites que apontam ao Algarve. Disseram que, por coincidência, nessa altura os satélites estavam todos virados para Marrocos. E a polícia inglesa declarou agora que na investigação McCann estarão envolvidos os serviços secretos.

Em Maio de 2007, alguns dias depois de Maddie ter desaparecido, um alto responsável do Departamento de Investigação Criminal (DIC) da Policia Judiciária (PJ) pediu aos colegas ingleses enviados à Praia da Luz para ter acesso às imagens dos satélites que vigiam a zona algarvia.
Se o pedido em si podia ser considerado como normal pois, no passado, as imagens satélite já serviram para ajudar as autoridades a solucionar um ou outro caso, a resposta surpreendeu. Segundo os “especialistas” enviados pelo governo britânico a Portugal, à hora a que Madeleine McCann foi levada do apartamento 5A do Océan Club, todos os satélites estavam virados para as costas marroquinas.
Apesar da explicação dada aos inspectores da Policia Judiciária, um dos polícias britânicos enviados ao Algarve acabaria por confirmar, em conversa informal, que “se existem imagens satélite da saída de Madeleine McCann do apartamento, elas são consideradas segredo de estado,” e logo impossíveis a fornecer às autoridades portuguesas.
Uma “coincidência” infeliz que acabaria por surpreender os homens da PJ quando, meses mais tarde, viram os mesmos “especialistas” defender a tese do rapto de Madeleine para Marrocos, apoiada nomeadamente pelas declarações fantasistas de uma agência de detectives espanhola, a Método 3, que, em declarações públicas, até dizia saber quem tinha levado a menina, porquê e como, prometendo mesmo o seu regresso a casa antes do Natal.

Um caso de Estado

Mas o caso dos satélites virados para o lado “errado” não é único. Em Inglaterra, a polícia do Leicestershire, em resposta a um pedido de um jornalista britânico, ao abrigo de um decreto que regula o livre acesso à informação, recusou-se a explicar se o recurso a escutas telefónicas e intercepção de correio electrónico no âmbito das investigações ao caso Madeleine McCann estaria coberto, ou não, por um mandado.
Parte dos agentes de polícia britânicos enviados à Praia da Luz nas 48 horas que se seguiram ao alerta criado com o desaparecimento de Maddie, vinham da polícia municipal do Leicestershire já que os seus pais, Kate e Gerry McCann, residem na sua área de jurisdição, nomeadamente em Rothley.
Segundo o jornalista Jon Clements, a polícia, depois de ter protelado a sua resposta durante vários meses alegando necessitar de consultar outras “Agências”, respondeu que não tinha qualquer obrigação de explicar em que termos foram utilizados quaisquer meios de vigilância no caso Maddie, por razões de “segurança nacional”.
A polícia do Leicestershire, considerada a 5ª melhor polícia municipal de Inglaterra, explicou ainda ao jornalista que estava igualmente dispensada de lhe responder, porque a explicação poderia estar relacionada com outros “organismos de segurança”, o que, de acordo com o decreto que regula o livre acesso à informação, significa os diversos organismos dos serviços secretos, tipo MI5, MI6, GCHG, SOCA ou as Forças Especiais.

Nem Sócrates os assustou

O desaparecimento de Madeleine McCann mereceu, desde o primeiro momento, uma atenção muito especial por parte das autoridades britânicas: um gabinete de crise especialmente dedicado ao apoio ao casal McCann foi criado no seio do Foreign Office ainda antes da chegada ao local dos primeiros inspectores da Policia Judiciária.
A importância dada pelo governo britânico ao casal McCann ultrapassou todas as expectativas e mesmo os elementos dos serviços secretos de Sua Majestade que se deslocaram a Portugal, acabaram por se mostrar surpreendidos com a facilidade com que Kate e Gerry McCann entravam em contacto com Tony Blair ou Gordon Brown.
O empenho do governo britânico foi tal que nem a intervenção pública do primeiro-ministro português, José Sócrates, pedindo aos políticos para não interferirem nas investigações ao desaparecimento de Maddie, conseguiu convencer os ingleses de deixarem a PJ trabalhar em paz.
José Sócrates, em declarações ao quotidiano espanhol EL PAÍS, em Setembro de 2007, logo após Kate e Gerry McCann terem sido constituídos arguidos, disse que, enquanto primeiro-ministro português, mantinha “total confiança no trabalho realizado pela polícia portuguesa” no caso Madeleine McCann.
Reconhecendo que o caso Maddie era “um caso muito difícil”, José Sócrates descreveu a desaparição de Madeleine McCann como um caso onde “a polícia deu o seu melhor para descobrir o que aconteceu à menina”.
O primeiro-ministro dizia ainda na altura que era uma obrigação para todos os políticos (ingleses ou portugueses) de não interferirem nas investigações em curso e de não “alimentarem o folhetim”.

Duarte Levy

EL MATRIMONIO MCCANN PRESENTÓ LAS CUENTAS DE LA CAMPAÑA DE SU HIJA

SÓLO EL 13% DEL DINERO SE GASTÓ EN BUSCAR A MADDIE

Publicado hoy en el diario 24 Horas y referencias en SOL, Diario Digital, Destak y versión inglesa en "Joana Morais". Original en portugués y en francés.

El Fondo Madeleine recibió casi 3 millones de euros de donantes privados, pero las cuentas no explican adónde fue todo el dinero.
El Fondo “Leaving No Stone Unturned Limited”, creado por Kate y Gerry McCann nueve días después de la desaparición de Madeleine del apartamento de Praia da Luz recibió, hasta Marzo de 2008, casi tres millones de euros en donativos, pero sólo el 13,30 por ciento del dinero fue gastado en investigaciones para, según el matrimonio, buscar a su hija.
Las cuentas de Mayo de 2007 a Marzo de 2008 del Fondo Madeleine sólo fueron reveladas después de que en TVI, en el programa “As tardes de Júlia” (“Las tardes de Júlia”) se abordasen algunos aspectos de la utilización dada al dinero por los McCann.
De acuerdo con el documento oficial al que tuvimos acceso, el Fondo creado para financiar las búsquedas de Madeleine recibió, hasta Mayo del 2008, un total de 2.819.403 euros, de los cuales sólo se gastaron 1.222.669 euros (43,37%), la mayor parte en gastos corrientes. El Fondo presentaba entonces un saldo positivo de 1.596.733 euros (56,63%).
Curiosamente, los McCann habrían gastado 122.856 euros (4’36%) en carteles y anuncios, pero el documento no especifica exactamente dónde habrían sido distribuidos estos soportes, lo que deja perplejos a algunos comentaristas, dado que las diversas campañas de distribución de carteles y “outdoors” anunciadas por los medios británicos para Portugal y España no se hicieron nunca, e incluso en Marruecos, país donde los investigadores contratados por la pareja pretendían que se encontraba Maddie, los pocos carteles distribuidos fueron aquellos que Kate y Gerry llevaron en su visita a aquel país y que distribuyeron entre los niños reunidos para la ocasión.
Otro dato curioso, en las cuentas del Fondo Madeleine tampoco figuran las cantidades que la pareja utilizó para pagar los dos plazos de la hipoteca de sus casa, pagados con el dinero de los donativos, como confirmó a la prensa Clarence Mitchell, antiguo responsable de la unidad de monitorización de los medios del gobierno de Tony Blair y portavoz de los McCann.
Hechas las cuentas, la pareja gastó 224.529 euros (7,96%) en relaciones públicas y monitorización de los medios, gastos que no deben de incluir -si tenemos en cuenta las declaraciones del interesado- los salarios de Clarence Mitchell, pero que revelan una preocupación constante con lo que se va diciendo en los medios, sin olvidar Internet, donde los abogados del matrimonio tienen amenazados a algunos de aquellos que no creen en la tesis del rapto de Maddie.
Desde Mayo de 2007, Internet ha sido una preocupación constante de los Mccann, lo que podría eventualmente explicar el creciente gasto con la creación y manutención de las páginas web del Fondo y de la tienda virtual, en la que se pueden comprar camisetas, pulseras y otros objetos relacionados con la niña: de acuerdo con los gastos ahora declarados, el “site” costó 55.606 euros (1,97 %) en oncemeses de actividad.

Rico, muy rico...

Mientras el cuerpo de Maddie no sea encontrado, el Fondo Madeleine “Leaving No Stone Unturned Limited” tiene su futuro asegurado, ya que su objetivo legal es continuar buscando a Maddie, y una salud financiera que muchas empresas, sobre todo en tiempos de crisis, le envidian: tras 11 meses de trabajo, el fondo presenta un saldo positivo de 1.596.733 euros, o sea, 56,63% de los ingresos.

SÓLO ENTREGA EL SUMARIO DE LAS CUENTAS
Fondo regulado como una empresa

Contrariamente a lo que se pensó inicialmente, el Fondo creado por los Mccann a 12 de Mayo de 2007 –apenas 9 días después de la desaparición de Madeleine- no es una institución de caridad lo que, según uno de los antiguos portavoces del matrimonio se explicaría por el hecho de que la pareja no deseaba estar sujeta a las severas condiciones de gestión impuestas por la comisión que gestiona este tipo de instituciones, la “The Charity Commission”, en la que estarían obligados a respetar escrupulosamente los objetivos del Fondo y a revelar exhaustivamente sus gastos e ingresos. Siendo un Fondo privado, el “Fond Madeleine” está regulado por el mismo departamento que las pequeñas y medianas empresas (Departament for Business, Enterprise and Regulatory Reform- BERR) y, como tal, tras el primer año de actividad está sólo obligado a entregar un sumario de la contabilidad.

Duarte Levy, Londres

MCCANN SÓ GASTARAM 13% DO FUNDO MADELEINE PARA PROCURAR A FILHA

Fundo "Madeleine" recebeu quase 3 milhões de euros de doadores privados mas as contas não explicam para onde foi todo o dinheiro e nem falam nos pagamentos da casa ou dos telemóveis dos McCann.

(consulte aqui o resumo das contas do fundo Madeleine)

O fundo “Leaving No Stone Unturned Limited”, criado por Kate e Gerry McCann nove dias depois de Madeleine ter desaparecido do apartamento da Praia da Luz recebeu, até Março de 2008, quase três milhões de euros em donativos, mas só 13,30 por cento do dinheiro foi gasto nas investigações para, diz o casal, procurar a filha.
As contas de Maio 2007 a Março 2008 do fundo Madeleine só foram reveladas depois de na TVI, no programa “As Tardes da Júlia”, terem sido abordados alguns aspectos da utilização dada ao dinheiro pelos McCann.
De acordo com o documento oficial a que tivemos acesso, o fundo criado para financiar as buscas de Madeleine recebeu, até Março de 2008, um total de 2.819.403 euros, dos quais apenas 1.222.669 euros (43,37 %) foram gastos, na maioria em despesas correntes. O fundo apresentava então um saldo positivo de 1.596.733 euros (56,63 %).
Curiosamente, os McCann teriam gasto 122.856 euros (4,36 %) em cartazes e anúncios mas o documento não especifica exactamente onde estes suportes teriam sido distribuídos o que deixa alguns comentadores perplexos, uma vez que as várias campanhas de distribuição de cartazes e “outdoors” anunciadas pelos média britânicos para Portugal e Espanha nunca foram feitas e mesmo em Marrocos, o pais onde os investigadores contratados pelo casal pretendiam que se encontrava Maddie, os poucos cartazes distribuídos foram aqueles que Kate e Gerry levaram aquando da sua visita e que entregaram às crianças reunidas para a ocasião.
Outro dado curioso, nas contas do fundo Madeleine também não figuram os montantes que o casal utilizou para pagar as duas prestações do empréstimo contraído na compra da sua casa, pagos com o dinheiro dos donativos, como o tinha confirmado à imprensa Clarence Mitchell, antigo responsável da unidade de monitorização dos média do governo de Tony Blair e porta-voz dos McCann.
Contas feitas, o casal gastou 224.529 euros (7,96 %) em relações públicas e na monitorização dos média, despesas que não devem incluir – se tivermos em conta as declarações do próprio – os salários de Clarence Mitchell mas que revelam uma preocupação constante com o que se vai dizendo nos média, sem esquecer a Internet onde os advogados do casal têm ameaçado alguns daqueles que não acreditam na tese do rapto de Maddie.
Desde Maio de 2007, a internet tem sido aliás uma preocupação constante dos McCann, o que poderia eventualmente explicar o montante gasto com a criação e manutenção das páginas internet do fundo e da loja virtual, onde se podem comprar camisolas, pulseiras e outros objectos relacionados com a menina: de acordo com as despesas agora declaradas, o site custou 55.606 euros (1,97 %) em onze meses de actividade.

Fundo Madeleine não é instituição de caridade mas é rico, muito rico…

Enquanto o corpo de Madeleine não for encontrado, o fundo Madeleine “Leaving No Stone Unturned Limited” tem o seu futuro assegurado, uma vez que o seu objectivo legal é continuar a procurar Maddie, e uma saúde financeira que muitas empresas, sobretudo em tempo de crise, lhe invejam: após 11 meses de trabalho, o fundo apresenta um saldo positivo de 1.596.733 euros, ou seja 56,63 % das receitas.
Contrariamente ao que se pensou inicialmente, o fundo criado pelos McCann a 12 de Maio de 2007 – apenas 9 dias depois de Madeleine ter desaparecido – não é uma instituição de caridade o que, segundo um dos antigos porta-voz do casal, se explicaria pelo facto de o casal não desejar estar sujeito às severas condições de gestão impostas pela comissão que gere este tipo de instituições, a “The Charity Commission”, onde estariam obrigados a respeitar escrupulosamente os objectivos do fundo e a revelar exaustivamente as suas despesas e receitas. Sendo um fundo privado, o Find Madeleine é regulado pelo mesmo departamento que as pequenas e médias empresas (Department for Business, Enterprise and Regulatory Reform – BERR) e como tal, após o primeiro ano de actividade, apenas está obrigado a entregar um sumário da contabilidade.

Duarte Levy (Londres)

Paulo Sargento : No caso Madeleine McCann a opinião pública foi manipulada

Entrevista exclusiva de Duarte Levy. Imagem de Joana Morais. 2008/2009 ©Todos os direitos reservados.



DL: Em relação ao caso Madeleine McCann que paralelos se podem estabelecer entre os dois casos? Duas meninas que desapareceram junto de pais que pretendem estar inocentes…

PS: Formalmente temos duas ou três questões… a primeira das quais é inequívoca. Duas meninas desapareceram, não voltaram a aparecer, não se encontrou qualquer tipo de corpo.
Segunda questão: em ambos os casos é reclamado, digamos assim, desde o início a hipótese de rapto. Quer no caso Leonor Cipriano, quer no caso Madeleine McCann. Bom, e esse rapto é reclamado sempre por parte dos pais, portanto a tese é desde o início colocada pelos pais. Há contudo uma diferença abismal, é que em relação ao caso Leonor Cipriano, o caso da menina Joana, a passagem da inocência para a suspeição é rápida. Numa ou duas semanas. Rapidamente a Leonor Cipriano deixou de ser uma mãe inocente de quem toda a gente tinha tido pena nas duas semanas anteriores, designadamente nos programas de televisão, onde a mãe choraria, apresentaria o retrato da menina e reclamaria de facto essa hipóteses da menina ter sido roubada por um pedófilo ou qualquer coisa assim do género, mas que a seguir começa logo a ser suspeita, investigada e depois presa enquanto no caso McCann, essa viragem digamos assim, da assertidade para a culpabilidade é socialmente feita muito mais tarde. E isto existe do ponto de vista sociológico, em termos criminológicos uma abordagem de nível social porque a L. C. é uma mulher pobre sem protecção, digamos, aparentemente política, ninguém, porque é uma simples desconhecida algarvia, que já tinha de algum modo, já trazia no seu passado uma carga ligada de certo modo, com a justiça, porque estava referenciada pela comissão de menores como sendo uma má mãe etc. Etc. E rapidamente o sistema se inverteu.
Relativamente aos McCann não, porque são de uma classe média alta, estrangeiros com protecção, que tudo indica, ao mais alto nível político, e essa passagem demorou mais tempo. Mas isso também quer dizer uma coisa… é que o tempo é que faz com que a verdade não se possa esconder eternamente, embora atrasado, as coisas começam também a ganhar outra forma. Mas aqui, a questão é de nível social, isto obriga-nos também a repensar todos os critérios de justiça no sentido de que podemos pensar que há dois tipos de justiça, consoante o tipo social onde a pessoa se integra.

DL: Em relação a opinião pública nos dois casos, até que ponto é que o comportamento da opinião pública, nomeadamente em Portugal, foi diferente num caso e noutro, e hoje em dia como é que se pode explicar, por exemplo, que não há avistamentos no caso Joana, mas há avistamentos até bastante emocionais no caso Madeleine McCann.

PS: Essa questão é uma questão muito interessante. Essa questão leva-nos a pensar que a opinião pública é mais sensível, foi mais sensível no caso também, no facto de se tratar de cidadãos estrangeiros que estão fora do país, e nós portugueses, esta questão que nós temos, esta hospitalidade de que somos um povo caloroso, que gosta de receber bem, com muita habilidade social, isto é, gostamos muito de estar a ajudar e de fazer aquilo que deve ser feito. Isso foi nos primeiros tempos uma das questões que ajudou, para além de outras a mediatizar este caso. Porque se teve interesse por outros assuntos, e são causas mais escondidas, que não serão fáceis de explicar, que o tempo explicará, que a investigação explicará. Uma causa fundamental é que o povo aderiu em massa. O povo fez da Madeleine uma espécie de filha adoptiva de Portugal que é uma coisa interessante. E nessa perspectiva foi também ajudando a criar, não é, quase uma espécie de patrulhas de buscas populares. Uma espécie de milícias de buscas populares que em certa medida também poderão ter ajudado por um lado, a confundir a polícia, e por outro lado a esconder outras pistas que podiam ser importantes nos primeiros tempos. Portanto, esta é uma das questões. Relativamente aos avistamentos, eu faço sempre a comparação com o caso Roswell no E.U.A.
Os E.U.A, 40 anos depois de Roswell, continuavam com avistamentos quase diários de OVNIS e é quando são feitos todos os filmes, as grandes sagas que têm a ver com aliens, que tem a ver com Steven Spielberg e com as guerras dos mundos, portanto é qualquer coisa que… o Platão dizia uma coisa muito simples em relação aos mitos. Os mitos são uma coisa que atrai uma aldrabice, narrativa fabulosa, uma mentira, mas é espantoso como é que eles explicam tão bem a realidade quando a razão nos escapa. E aqui é a mesma coisa. Enquanto se vai mantendo o avistamento, esse mito, o mito de Maddie portanto, se isso fosse na idade média, a Maddie já teria sido beatificada e santificada. Hoje não o é porque de facto, felizmente não é esse o problema em que nós vivemos. Mas o mito, o aparecimento, ou por outra, os avistamentos da Maddie são iguais aos avistamentos de OVNIS, mantemos, sabemos que ela já não está viva, mas mantemos essa hipótese no nosso imaginário, nós sabemos que não existem, temos grandes evidências que não existe vida extraterrestre, pelo menos no fundo do tipo como o Orson Wells quis mostrar na guerra, quando simula a invasão com marcianos verdes. Poderá haver outra eventualmente, mas temos sempre uma ligeira desconfiança do se calhar existe. Agora o que é curioso é que se permanece e isto é um viés de pensamento humano, que se permanece de facto a preservar o erro, que é, os avistamentos que foram mais negativos, mais consecutivos, que foram os de Marrocos, foram aqueles que durante mais tempo, foram os mais credíveis para alguma comunicação social. Insistia-se nesses avistamentos quando tínhamos o pressuposto matemático contrário. Se tive três avistamentos negativos, eu tenho logo de pensar que é pessoal, são pessoas, a população é mais susceptível, é mais sugestionável e portanto vai haver mais coisas onde elas não existem, mas isso curiosamente serviu, vamos pôr isto entre aspas, para “entreter” alguma imprensa e manter a tese de rapto no ar sem qualquer critério. Portanto se há avistamentos é porque sim senhora as pessoas continuam a acreditar que eventualmente há um rapto.

DL: Nos casos de rapto provados, onde por vezes não se encontram o corpo, fala-se sempre na questão de fazer o luto. A necessidade de que os pais têm de encontrarem o corpo para fazerem o luto. No caso de Madeleine McCann, até que ponto a opinião pública precisa de fazer o luto deste caso?

PS: Necessita, e essa é uma questão fundamental até para, digamos, encerrar o caso. Enquanto não se souber de facto o que se passou, há sempre uma réstia de desconfiança. O luto serve para nós repararmos uma perda. Quer-se dizer, se nós quisermos uma definição rápida do luto, de como é que consigo reparar uma perda, como é que consigo pelo menos reparar os efeitos muitas vezes devastadores, de ponto de vista emocional que essa perda causou. E regra geral, tem de ter marcadores. Não é ao acaso que nós temos cemitérios. Nós pura e simplesmente podíamos morrer, deixássemos que os corpos se decompusessem naturalmente, como a natureza o faria e mais nada. Mas não. Temos símbolos. Símbolos que nos vão ajudando a certificar-nos que está ali, que aconteceu, que aquele fim acabou, e essa simbologia permite-nos uma passagem daquilo que foi real, que existiu para uma recordação que é outro tipo de realidade que é evidenciada. E enquanto isso não acontece, quando não há uma prova concreta, continua a ambivalência e dai também os avistamentos, porque enquanto não souberam que morreu, é possível estar viva. Portanto, e é esta, digo eu, que há um certo interesse nalguma imprensa e nalgum tipo de movimento de informação ao redor deste caso que mantém em circunstâncias e alturas muito estratégicas, os avistamentos como forma de informação para evitar esse luto. Ou seja, se, vamos supor outro caso, o caso de Castelo de Paiva onde caiu há 4/5 anos, como todos nós sabemos, uma camioneta com uma série de pessoas, de excursão, caiu, onde morreram uma série de pessoas em que muitos daqueles corpos não apareceram. Nós também percebemos que as pessoas, entre as quais os familiares dos corpos que não apareceram tiveram maiores dificuldades em encerrar esse capítulo dessa vida. Do ponto de vista sócio-cultural nós vamos ter grandes dificuldades em encerrar de facto, o capítulo Maddie, enquanto não soubermos o que aconteceu de facto, enquanto não tivermos, digamos, a prova inequívoca. Enquanto se conseguir dar uma no cravo e na ferradura, este fenómeno nunca terá de facto um fim. Nunca terá, é como se nunca pudéssemos estar em paz, do ponto de vista social, nunca estar em paz com a Maddie enquanto não se souber efectivamente, preto no branco, a menina morreu, foi isto que aconteceu e acabou, ela andará sempre no limbo entre uma verdade e uma mentira. Será sempre uma espécie de fantasma que vai perseguir Portugal e Inglaterra e a relação entre os dois povos.

DL: Mas e em relação ao casal? Em relação a Kate e Gerry McCann, neste momento, pelas imagens que são conhecidas, pela atitude do casal pode-se concluir que eles já fizeram esse luto?

PS: Não, não concluiria isso, até concluiria outra coisa. Todos nós na vida, todos os seres humanos na vida têm pactos. Acontecem-nos coisas mais ou menos terríveis, de acordo com o sistema de valores e com a gravidade relativa junto dos acontecimentos e a forma como os vivenciamos e a forma como fazemos pactos. O que é comum aqui, em ambos, nestas circunstâncias de casais, por exemplo, que perderam um filho, duma forma ou doutra, e, e aqui não se discute do problema se tem ou não tem responsabilidade, do facto evidente que perdeu o seu filho é haver, basicamente isto é descrito na investigação psicológica, haver rupturas. Rupturas conjugais passado algum tempo de quando esse factos acontecem. E porquê? Justamente porque não podemos pensar que duas pessoas fazem o luto duma mesma situação em comum ao mesmo tempo. Isto é um ponto-chave para perceber o fenómeno. Há um que, por ventura, fará primeiro que o outro. E o que fará primeiro que o outro a dada altura deixará de estar tão fixado, por exemplo, na morte ou na perda da criança, para começar a fazer uma vida dita normal. Começar a sorrir outra vez, começar a sair, começar a ir jantar fora, começar a … bom, a viver a vida! Porque já resolveu, já reparou o efeito devastador emocional e o outro não e aqui começa o conflito. Que será do tipo “ como é que podes querer ir jantar fora quando o nosso filho só morreu há dois anos?” Portanto, isto para quem trabalha do ponto de vista clínico, com famílias percebe isto com clareza. Ora isto passou-se um ano e qualquer coisa, no caso Maddie McCann, e visivelmente nós não vemos qualquer tipo de crise entre o casal. Não quer dizer que tem de ser sempre assim, mas algum sinal devia ter havido. O único sinal que continuamos a ter é um sinal de natureza superficial, que tem a ver com a imagem, a assessoria de imagem que estão a ter naturalmente, que é algures marcadores sociais de grande união, aliás o exemplo da forma como o Gerry escreve no blog, agora pelo menos depois de ter recomeçado a escrever é de facto “a Kate e eu temos andado de facto muito ocupados a fazer isto…” quer se dizer, tentar dar uma ideia sempre de normalidade, de alguém que continua naquela busca, unidos com o mesmo objectivo. Mas tão unidos com o mesmo objectivo e ao mesmo tempo estão a dizer que não conseguiram, digamos, encontrar ainda, é uma coisa que lhes falta também para fazer o luto da situação. E nessas circunstâncias parece-me mais que não terá a ver com ter feito ou não ter feito o luto, mas sobretudo há um pacto entre eles dois sobre esta questão, pelo menos do ponto de vista emocional daquilo que se pode ver, porque eles são muito formais e digamos, apresentam, quer do ponto de vista do discurso publico e do comportamento social, marcadores que sugerem de facto este tipo de pacto, uma estratégia pré-delineada e assessorada para manter de facto esta busca que incessantemente, ainda do ponto de vista contraditório. Contraditório porquê? Porque se está interessado em manter o caso na ribalta, tem estado muito calado. Também se pode perceber a ideia de “bom temos estado calados porque temos estado a procurar pistas… etc. … Mas estas mudanças, digamos de opiniões, as pessoas precisam de saber, porque este caso, Madeleine McCann, deixou de ser um caso que interessa só ao casal, ele interessa a todo o mundo, porque não se pode mobilizar a ajuda e depois não a querer… assim de ânimo leve, portanto eu diria que não se trata de luto, não o terão feito ou terão feito, mas eu acho que não é esse o problema que se deve pôr, mas em que medida é que uma espécie de pacto, moldado por circunstâncias estratégicas do ponto de vista social, qual o tempo que ele irá durar. Até quando as pessoas vão poder aguentar a pressão que é também muito estranho como é que, eu não sei se eles têm apoio psiquiátrico, ou psicológico, ou psicoterapêutico ou não, e as pessoas têm níveis de resistência ao stress diferente, mas para quem não é, não eram pessoas que fossem figuras públicas, que estivessem habituadas ao stress de estar permanentemente com câmaras, têm estado, aparentemente do ponto de vista emocional, muitíssimo bem. Estranhamente bem, eu digo.

DL: Para voltarmos ao caso Madeleine McCann, os vídeos que foram criados há algum tempo pelo Paulo Sargento, qual é a ideia atrás desses vídeos? Eu falo por ex. no vídeo onde se vê o trajecto seguido por um carro que sairia do Ocean Club.

PS: Ok. Nesse vídeo onde se desenha não um mas três trajectos alternativos, o que se procurou demonstrar na altura é que um carro que saísse supostamente da janela do quarto das traseiras, digamos, da porta onde o casal McCann estava hospedado. O carro que saísse pela estrada que vai por trás do O.C até à igreja, ou pela estrada que passa pela frente do O.C até a igreja, demoraria cerca de 27/28 segundos a fazer o trajecto a uma velocidade de 50 km/h, portanto seria a velocidade máxima permitida dentro duma localidade. Portanto este foi o cálculo que foi feito. Num desses trajectos, o carro teria duas vantagens em fazer o trajecto. Imaginemos que há alguém que leva a menina, viva ou morta não interessa, de carro até o ponto a partir do qual se pode fazer divagações, nomeadamente par o mar ou seja para onde for.
Esse trajecto demora 26 segundos e se for pela parte virada, digamos, a parte direita do O.C onde não passa quase em frente à porta, esse trajecto é praticamente rectilíneo. É uma estrada que não tem quaisquer obstáculos, tem pouca gente até porque há um terreno baldio, não sei se ainda haverá, mas nessa altura havia um terreno baldio de cerca de dois hectares que estava cortado ao público para obras, portanto não havia muita gente a ver e portanto seria um trajecto que em menos de 30 segundos um carro chegaria lá junto á igreja, e imaginemos que há uma terceira pessoa, um cúmplice qualquer poderia levar a menina e a ter levado para outro sítio a partir desse ponto. E depois há outro trajecto que demora talvez mais um segundo, mas tem mais curvas, mais curto mas tem mais gente a passar… naturalmente, tem sobretudo uma questão. Ele passaria em frente à porta do OC. Vamos imaginar que era alguém conhecido do grupo dos 9 que estaria a fazer esse trajecto com a menina, aí daria muito nas vistas. Fosse qual fosse o trajecto, isto demonstra uma coisa, demonstra a possibilidade de em menos de 5 minutos, alguém ter saído da mesa do OC, ter pegado a menina com o carro, ir até a igreja, voltar e em 5 minutos estaria novamente a conviver com os colegas. Esta é uma demonstração clara.

DL: Hoje em dia já se sabe até, haver corte na informação. Sabe-se mais ou menos o espaço de tempo que esteve à disposição do casal, de alguns dos amigos para se ausentar do jantar do OC e um primeiro dado que aparece fala-se num espaço de tempo de 12 minutos. 12 minutos seriam então um tempo para fazer evacuar um corpo de um apartamento?

PS: Metade desse tempo seria mais que suficiente, confortavelmente suficiente.

DL: Em relação ao caso Madeleine McCann, esses retratos robots que apareceram sucessivamente, até que ponto se pode dar credibilidade quer às testemunhas que estão na origem desses retratos robots, quer os retratos robots em si porque são muito diferentes entre eles.

PS: Sim são diferentes. Eu acho que esses retratos robots são uma completa falácia e há erros de todos os níveis. O primeiro dos quais tema a ver com a foto. O retrato robot é uma produção digamos executada, regra geral por um desenhador ou técnico da polícia tendo em vista um testemunho. Portanto, a primeira questão que nós devemos colocar é se o testemunho é credível. Em duas situações o testemunho foi uma senhora chamada Jane Tanner que pertencia ao grupo do tapas não é verdade… e essa senhora como se pôde verificar nas produções discutíveis que foi tendo com a polícia, foi tendo alterações. Isto é mais que motivo suficiente para ficarmos de pé atrás quando vamos encontrar o retrato robot, portanto o sketch do desenhador da polícia, que é o resultado ou tentativa de transformar o resultado de uma produção digamos discutíveis de uma pessoa que está constantemente a alterar o seu testemunho. Para darmos exemplo disso no primeiro esquisso temos qualquer coisa como ter visto um homem que transportava qualquer coisa ao colo, tipo, parecia uma criança embrulhada num cobertor, e no segundo era a Maddie que ia ao colo duma forma estranha porque ninguém No retrato robot já aparece o desenho duma menina ao colo, de forma até muito estranha porque ninguém transporta assim na espécie humana, assim é só em circunstâncias muitos especiais a não ser que reconhecidamente tivesse morta mas não estou a ver alguém com uma criança morta a passar numa rua, a mostrá-la ao público. Portanto isso é falacioso. Espanta-me a mim como é que uma desenhadora experiente, por exemplo duma polícia científica, pode cair num erro primário destes e depois as relações – proporções quer dizer, também uma criança de 3 anos, na proporção digamos que tem para com o adulto que a transporta é mal reproduzida na medida que aquelas pernas são pura e simplesmente compridas demais na relação dos canos (antropométricos) que, repito, uma desenhadora forense tem a obrigação de os conhecer e de reproduzir desta forma. Por isso aquilo é completamente falacioso…
Mas ainda há aqui uma questão muito interessante, é que esse retrato é já produzido, já com um pijama que é um pijama que só apareceu a público, depois da Jane Tanner ter produzido o primeiro relato, e no segundo ela alterou. Portanto um primeiro retrato robot que diz respeito ao testemunho, depois o que diz respeito às circunstâncias técnicas com que um desenhador forense deve ter na sua formação e claramente não pode dar erros primários desses. E depois um retrato robot pretende quase sempre identificar aquilo que os seres humanos são mais identificáveis e a gente sabe que somos mais identificáveis, os bebés olham para uma parte mais especial do nosso corpo que é para face, triangulo, olhos nariz, boca e qualquer pessoa que tenha visto qualquer outra pessoa instintivamente para onde olha é para a cara.
E se alguém viu alguém e que desconfia que alguém levava essa menina é de espantar como repara em sapatos clássicos, calças beges, casaco castanho, camisa bege, ingredientes de cor tão difíceis de observar à noite e tão atentos aos pormenores, e os mantém ao longo dum certo tempo e não tenha nenhum traço da cara. Bom, isto não é um retrato robot.
Por último e mais relevante e que, do meu ponto de vista, traduz efectivamente a vontade que há em manter a tese do rapto a todo o custo passando por erros tão grosseiros como estes que acabo de dizer é de ainda dizer; bom, mas atenção que este é o retrato efectuado por uma desenhadora forense com formação de FBI. Ora o que é que temos aqui? A imposição clara dum argumento de autoridade em prol da autoridade do argumento. Se o argumento é bom não interessa ser feito por o FBI ou feito por qualquer outra pessoa e mais ainda, nem todas as instituições conhecidas e competentes têm 100% de gente competente, portanto isto é um erro absolutamente extraordinário e foi nesta base que se tentou também mostrar este vídeo para pura e simplesmente dizer que este retrato robot serão falácias e mais ainda o terceiro que aparece, o sketch com um sujeito de barbas e muito parecido como já se disse muitas vezes como piada, muito parecido ao ex. Beatles o tímido Georges Harrisson, é produzido, não pela mesma testemunha, a Jane Tanner, como se fax crer, mas por uma cidadã inglesa, britânica, que não estava sequer na Praia da Luz na altura em que a pequena desapareceu mas que cerca de um mês depois e que viu um sujeito com aquelas características, e é baseado naquelas características, e depois de alguns discursos que tinham dito que era alguém com um ar mediterrânico que é reproduzido este terceiro retrato robot.
Quer dizer... era muita coincidência que o sujeito ainda se mantivesse lá, depois de ter raptado um mês quase depois e que essa senhora tivesse visto esse mesmo sujeito. Agora isto deu particular jeito a uma agência de detectives privada que está a trabalhar para os McCann para encontrar em Altura no Algarve, junto a Vila Real de São António, um sujeito também com barba, com cabelo bem comprido, por acaso também tinha um blusão castanho e que estava ali em Altura que é a meio caminho, por exemplo, entre a Praia da Luz e Huelva onde tinha também, na mesma altura, passando aqui o pleonasmo, sido raptado uma menina que depois se veio a descobrir que, de facto, tinha sido raptada e assassinada por um pedófilo. Só que nesse momento não se sabia disso e provavelmente deu muito jeito arranjar um sujeito que ainda por cima demonstra-se claramente pela comparação facial da reconstituição antropométrica digamos de proporções faciais que nada tem a ver com o retrato robot, que ainda por cima é um cidadão que sofre de perturbação psico-sociais. Deu muito jeito para manter durante mais algum tempo um retrato robot que é ele próprio um retrato robot falacioso e construído, e eu arriscaria a dizer, construído artificialmente porque pura e simplesmente a parte da arcada sobre ciliar e a parte facial mais baixa, não coincidem em termos de proporções e estamos a criar uma espécie de ser humano ambíguo porque a parte de cima é tipicamente masculina, acentuando os traços sobre ciliar um pouco ao estilo… tinha bossas cranianas um pouco mais distintas e tinha um ar mau, nós quando queremos por exemplo, mesmo no cinema, quando queremos pôr um actor a fazer de criminoso não vamos pôr um actor com traços finos, pomos um tipo mais grosseiro, esta arcada sobre cilhar tipo Neandertal é assustadora não é? Esta parte de cima está assim mas esta parte de baixo é tão parecida com o cidadão por exemplo mais anglo-saxónico enquanto a parte de cima é parecida com um magrebino. Ou seja, temos aqui uma espécie de figura híbrida que agora resta saber se é novamente uma incompetência da desenhadora ou se é algo mais perigosa que isso, uma fabricação para desenhar uma espécie de estereótipo criminoso ancestral.

DL: Uma última pergunta, talvez em relação à campanha que foi criada a volta do caso. De um ponto de vista psicológico até que ponto é que se pode considerar que a utilização do Cuddle Cat, aqueles passeios junto ao mar, aquelas idas à igreja, até que ponto se pode explicar isso em termos de manipulação da opinião pública?

PS: Eu acho que, quer dizer, as próprias acções em si são uma evidência de manipulação da opinião pública porque o natural no desaparecimento duma filha, numa perda duma filha quer-se que nós temos de distinguir aqui o que é o comportamento mais frequente nos seres humanos, não quer dizer que por ser mais frequente não haja pessoas que possam adoptar outro tipo de postura ou de comportamentos… sem que isso queira dizer, queira torna-los suspeitos ou outra coisa qualquer e culpá-los. Mas o mais natural é que qualquer pessoa que lhe tenha desaparecido uma criança, um ente querido, seja o que for, prefira ter à sua volta polícias e pessoas que tecnicamente as ajudem a encontrar e não procurarem como, por exemplo, a primeira noite foi procurado um padre e logo a seguir um assessor de imagem. Estas são questões de base, fundamentais. Esta preocupação leva a pensar numa coisa fundamental, é que, para além do eventual desaparecimento, que a gente não sabe o que é que foi, havia outras preocupações acessórias e essas ganharam preponderância, e tanto ganharam preponderância que os passeios eram marcados, só há um tipo de imprensa informada, o cuddle cat foi usado em determinadas circunstâncias duma forma mais demonstrativa para as câmaras e eu hoje, o casal McCann que me desculpe, eu nunca mais vi o cuddle cat e eles têm continuado a ser filmados. Serviu de facto um intuito do ponto de vista da manipulação da imagem. Tendo isto, tanto positivo como negativo, não estou aqui a criar um juízo de valor que as pessoas podem querer manipular a imagem com digamos uma intenção muito boa que é de facto manter vivo o interesse pela busca, digamos, da sua filha e naturalmente seria até legítimo pensar que essa manipulação fosse feita para manter o interesse agora não se compreende é porque se muda de atitude e porque algumas coisas servem e doutras vezes não servem. Portanto aí não tenho dúvidas a informar que havia manipulação e que como estavam assessorados para o fazer, isso veio a demonstrar-se.

DL: Uma questão que foge um bocadinho do capítulo da psicologia mas que se enquadra na experiência que o Paulo Sargento tem. Até que ponto, partindo do princípio que este caso será reaberto e que esse caso será um dia julgado em tribunal, até que ponto será possível, em Portugal, se colocar estes pais ou quem quer que seja de outro face a um juiz ou um jurado e pensar-se que um juiz ou um jurado terá independência suficiente face a mediatização que houve para julgar este caso?

PS: Bom, a primeira coisa, eu tenho a sensação em primeiro lugar que isso nunca vai acontecer, mas é uma sensação é, digamos, é uma opinião, não a nada que eu possa dizer, há um conjunto de partidores que eu possa afirmar que bom da minha perspectiva e um desses partidores é de facto a excessiva mediatização faz com que regra geral os verdadeiros culpados nunca aparecem. Eu vou lembrar só um caso célebre. Um caso, curiosamente britânico Jack the Reaper. O Jack Estripador foi a primeira grande mediatização histórica no crime, foi a primeira vez que se vendeu jornais a sério por causa dum crime, isso levou a uma confusão tal que nunca se veio a descobrir a verdadeira identidade desse tal Jack, que tem um nome que pensa-se que foi criado pela própria imprensa, é um nome que nunca foi assinado em lado nenhum. E portanto esse foi o primeiro grande exemplo, curiosamente inglês em que a mediatização funcionou para confundir, funciona regra geral a favor de quem praticou o crime e não o contrário. Portanto há aqui um paradoxo que o excessivo informar tem problemas em relação a isso, porque é preciso não esquecer informa todos, não informa só alguns, informa também o criminoso. E o casal McCann estava avisado disso desde o inicio.
Bom, meus amigos vocês quanto mais publicidade fizerem, mostrar o problema da vista da menina e não sei quê, estão a colocar mais em perigo, se houver rapto da menina, porque o raptor ao ver esta mediatização outra coisa não terá a fazer senão eliminar de facto a menina. E esta questão era, foi avisado o casal McCann … Bem mas isso leva a outra coisa que tem a ver com a pergunta. Depois da mediatização é óbvio que o conjunto de informação e digamos de redundância, vamos pôr aqui entre aspas “de lixo informacional” é tão grande que qualquer juiz, qualquer jurado vai ter dificuldade em analisar com objectividade o caso. Portanto isto é um caso condenado à partida do ponto de vista da informação pura. Quer se dizer são todos, porque informação pura não existe, mas aquela ideia da imparcialidade da justiça e da cegueira da justiça é impossível desde logo por critérios fundamental de um filósofo que faleceu há pouco, e que dizia que a justiça só podia ser justa algum dia se fosse feita com um véu de ignorância. Ou seja, se eu pudesse fazer uma justiça a qual eu não teria que me submeter, eu aí teria uma justiça justa da mas assim só consigo fazer justiça enviesada, e aqui será muito enviesada de facto e esses é um dos partidores para além de outros como por exemplo as influências políticas, as influências religiosas como o Vaticano que não se percebeu como é que entra e sai mais ou menos discretamente do caso. Faz com que eu não tenha grande crença em relação ao facto de um dia haver um julgamento sobre o caso. Mais isso como já disse muitas vezes teria consequências políticas sérias e muito chatas.

Mais um jornal britânico obrigado a contribuir para o fundo Madeleine McCann

Kate e Gerry McCann versus “The Evening Standard”


O jornal britânico “The Evening Standard” veio hoje juntar-se à já longa lista de meios de comunicação social que, no Reino Unido, foram forçados a pedir desculpas aos pais de Madeleine McCann.
O anúncio deste volte face do The Evening Standard foi feito no mesmo dia em que o pai de Maddie afirmava perante os média portugueses que pretendia "andar para a frente e não para trás" e que não tinha intenção de avançar com processos judiciais contra os meios de comunicação social neste país.
Aos jornalistas portugueses Gerry McCann afirmou querer “deixar completamente claro que o que aconteceu no passado já lá vai”, pretendendo, segundo ele, focar-se “no que ainda pode ser feito para continuar a busca”.
“Essa é a nossa prioridade e sempre foi. Portanto, essas coisas [possíveis processos judiciais] simplesmente não são relevantes neste momento,” afirmou Gerry McCann.
Apesar das afirmações do pai de Madeleine McCann de que o casal não estava preocupado com possíveis processos judiciais contra os meios de comunicação social, o jornal britânico viu-se obrigado a fazer “uma doação muito substancial” ao fundo criado após o desaparecimento de Maddie, e a “publicar anúncios nas edições estrangeiras de outro jornal do nosso grupo, o ‘Daily Mail’, solicitando informação que possa conduzir ao encontro de Madeleine”.
Na sua edição online, o jornal “The Evening Standard” escreve que durante os últimos meses de 2007, “tal como uma grande parte dos média”, publicou vários artigos que “podem ter sido entendidos como sugerindo que Kate e Gerry McCann podem ter estado envolvidos no desaparecimento de Madeleine”.
“Lamentamos este facto e queremos tornar claro, para evitar qualquer dúvida, que aceitamos totalmente que não existe nenhuma prova que sugira que Kate e Gerry estiveram envolvidos no desaparecimento da sua filha,” escreve o jornal.
Uma fonte da redacção, contactada por SMM, confirmou que este anúncio é o resultado de um acordo com os advogados do casal a fim de evitar um longo processo nos tribunais onde “dado o enorme apoio político e jurídico dos McCann, teríamos poucas hipóteses de sucesso.” A mesma fonte afirma no entanto que este anúncio “não alterou em nada a visão que vários jornalistas têm do caso e da possível responsabilidade do casal” mas que no futuro “será impossível publicar uma linha que ponha em causa o casal.”
Na sua edição online o The Evening Standard escreve ainda que “não existem provas de que a Madeleine tenha sofrido algum mal,” ignorando desta forma todos os indícios, e a própria lógica ligada a estes casos, que indicam que a pequena britânica está morta.

Duarte Levy

Amaral para presidente

O anúncio da eventual candidatura do ex-inspector da PJ Gonçalo Amaral à câmara de Olhão como cabeça de lista do PSD estaria a dividir a comissão coordenadora autárquica dos sociais-democratas, causando uma certa celeuma… pelo menos é o que diz o jornalista José Manuel Oliveira no Diário de Notícias de hoje.
À primeira vista, a designação do ex-inspector do caso Madeleine McCann como cabeça de lista à câmara de Olhão parece servir mais os interesses do PSD algarvio do que as próprias aspirações pessoais de Gonçalo Amaral, que nunca escondeu verdadeiramente as suas cores políticas.
Mas a notícia vai mais longe e afirma ainda que o social-democrata Miguel Macedo está contra o nome de Gonçalo Amaral, por considerar que o ex-inspector da PJ não se encaixa no perfil de autarca que o PSD deve defender. Resta agora saber se a falta de perfil apontada a “Gonçalo” se deve ao facto de ele sair da Judiciária ou à sua falta de experiência em política autárquica.
Em ambos os casos, os argumentos de Miguel Macedo não deverão convencer a distrital algarvia do PSD se esta tiver em conta o caso de outro ex-inspector da Policia Judiciária: Francisco Moita Flores, que foi candidato do PSD, tendo sido eleito presidente da Câmara Municipal de Santarém, onde os resultados do seu trabalho, apesar da sua aparente falta de experiência na política autárquica, não o impediram de ser visto pelos seus munícipes como um bom autarca.
É certo que Olhão não é Santarém, e que Amaral não é o Moita Flores, mas se a moda pega a próxima geração de autarcas portugueses poderá até sair dos quadros da PJ, da PSP ou mesmo da GNR. Não serão provavelmente os autarcas com maior experiência política mas, em compensação, teremos menos presidentes de câmara julgados por corrupção ou crime.

O Oliveira e o Amaral

Se a entrada de Gonçalo Amaral na vida política portuguesa só me surpreendeu pela rapidez, o que é certo é que o anúncio não passou despercebido na comunicação social portuguesa, onde as reacções nem sempre foram positivas; veja-se, por exemplo, o caso do “24 horas” onde Ricardo Pereira qualifica de “desespero laranja” a escolha do ex-inspector como candidato a Olhão.
Já o Diário de Noticias fica-se pela “surpresa da escolha” dos sociais-democratas algarvios, se bem que o mais surpreendente seja de facto o estilo quase simpático adoptado por José Manuel Oliveira, o jornalista que assinou o famoso artigo que, publicamente, teria estado na origem do afastamento de Gonçalo Amaral da investigação à morte de Madeleine McCann.
Ao servir-se da amizade entre a jornalista Paula Castanheira e a esposa do inspector para obter alguns desabafos em off acerca do desânimo de Amaral com a falta cooperação da polícia inglesa, mais interessada em proteger os McCann do que verdadeiramente em ajudar as investigações, José Manuel Oliveira criou a desculpa ideal para o afastamento de Gonçalo Amaral.
Uma decisão que já tinha sido já adoptada, até prometida aos ingleses, mas que era necessário justificar perante a opinião pública portuguesa.
Extremamente crítico em relação a Gonçalo Amaral durante o inquérito ao caso McCann, José Manuel Oliveira é agora mais subtil no tratamento dado à entrada do ex-inspector na vida política algarvia, o que surpreende… ou não.

Duarte Levy

Caso McCann : Análises das chamadas telefónicas revelam pista inexplorada

O meu artigo, publicado inicialmente nestas páginas na passada terça-feira, (ler o original), traduzido em francês no meu blog “SOS Madeleine McCann” (ler aqui) foi hoje publicado, dia 18, no diário português 24 Horas. Outros jornais portugueses decidiram fazer-lhe igualmente referência, nomeadamente Sol e Destak.

Ontem, na revista semanal TV Mais, o meu colega e amigo Hernâni Carvalho publicou igualmente um artigo abordando o caso. Uma tradução em inglês está também disponível no excelente blog de Joana Morais.

Caso McCann : Análises das chamadas telefónicas revelam pista inexplorada

Justine McGuiness e a Ribeira do Vascão

Justine McGuiness, a porta-voz dos McCann que os acompanhou na fuga para Inglaterra logo após terem sido constituídos arguidos, deixou no apartamento que serviu de quartel-general ao casal diversos documentos, incluindo fotografias, estabelecendo uma possível relação entre o desaparecimento de Madeleine e as margens da Ribeira do Vascão, junto à fronteira com Espanha. Hoje, 19 meses passados desde o dia em que Madeleine desapareceu, a pista deixada por Justine McGuiness volta a dar de que falar.


É no dia da fuga de Kate e Gerry para Inglaterra, a 9 de Setembro de 2007, quatro meses passados desde o desaparecimento de Madeleine McCann, que a Policia Judiciária (PJ) vai meter as mãos numa série de documentos deixados na Vila Vista Mar, até então ocupada pelo casal, onde constam fotografias e mesmo um croqui, indicando a localização detalhada de um lugar na fronteira entre o Alentejo e o Algarve, a 20 km de Almodôvar, atravessado pela ribeira do Vascão. Os inspectores da PJ entraram na casa logo após a saída dos McCann para o aeroporto, aproveitando assim o facto de os jornalistas terem acompanhado o casal.

Os documentos, ali deixados pela porta-voz dos McCann, Justine McGuiness, foram encontrados por debaixo de um sofá e continham, para além da identificação de uma zona geográfica bem precisa, inúmeras inscrições que a PJ nunca conseguiu interpretar. Segundo fontes próximas do inquérito, nada foi feito nesse sentido e os homens da PJ, que teriam olhado para os documentos como obra de um grupo esotérico, nem sequer se deram ao trabalho de visitar o local indicado considerando a pista como não tendo qualquer valor para o caso.

A porta-voz dos McCann, que os acompanhou durante os dias em que o casal foi constituído arguido perante a justiça portuguesa, acabaria por ser despedida ao chegar a Inglaterra, isto não obstante o facto de que ela poderia revelar-se uma das testemunhas mais incómodas para o casal e para as próprias autoridades inglesas. O certo é que Justine McGuiness nunca foi questionada pela Policia Judiciária e assim sendo o significado exacto dos documentos e das fotografias nunca foi explicado

Em declarações gravadas recentemente em Londres, fontes próximas da ex-candidata do partido liberal, especialista em relações públicas, confirmaram que Justine McGuiness terá mesmo sido alvo de diversas pressões, nomeadamente no campo jurídico, indicando-lhe que deveria manter o silêncio sobre tudo o que viu ou ouviu durante o tempo em que trabalhou junto de Kate e Gerry McCann.

O que é certo é que antiga porta-voz do casal estava já em evidente ruptura com o casal, em particular com Kate McCann, no dia em que com eles deixou Portugal e não surpreendeu a ninguém o “divórcio” à chegada a Inglaterra. Justine sempre teceu duras criticas, algumas das quais em presença de diversos jornalistas à mãe de Madeleine e as más relações entre as duas mulheres não se ficavam pelas questões financeiras, onde Justine sempre exigiu o pagamento do seu trabalho e das numerosas horas passadas ao lado do casal mas também nos encontros e jantares com jornalistas e enviados das autoridades britânicas.

Hoje, tudo poderia estar esquecido não fossem os resultados de uma investigação às chamadas telefónicas do casal McCann e de todas as pessoas que estiveram em contacto com eles, levada a cabo por jornalistas em colaboração com antigos operacionais dos serviços de informação.

Swansea mais uma vez

Ao investigar as chamadas recebidas e feitas pelos telefones portáteis dos McCann durante o tempo que ficaram em Portugal, os investigadores vão encontrar um relatório do inspector Paulo Dias da PJ onde se confirma que Kate recebeu no dia 2 de Maio de 2007, pelas 11h21, uma chamada de Swansea (UK) que, mais tarde, ela justificaria à PJ como tendo sido um engano. Um “engano” suficientemente importante para que a mãe de Madeleine tivesse guardado o registo dessa chamada no seu telefone, apesar de ter apagado todos os detalhes de outras comunicações.

Mais interessante ainda, os investigadores – alguns britânicos - habituados a tratar de casos ditos sensíveis, vão encontrar o registo de uma chamada telefónica feita no mesmo dia, depois do almoço, entre um telefone portátil na Praia da Luz e o mesmo número de Swansea que tinha contactado Kate McCann. O portátil de onde a chamada é efectuada não pertence a nenhum dos McCann nem ao grupo de amigos que os acompanhavam e a até hoje a Policia Judiciária, não obstante diversos pedidos às autoridades inglesas, nunca conseguiu identificar o proprietário desse portátil nem obteve dos Ingleses apoio ou vontade para que eles questionassem quem quer que fosse acerca destas chamadas.

Agora, ao cruzar os resultados obtidos junto das operadoras de telecomunicação móvel em Portugal e em Espanha com os relatórios da Policia Judiciária, em especial o excelente trabalho do inspector Paulo Dias, investigadores e jornalistas encontraram um novo elemento digno de interesse: o telemóvel utilizado na Praia da Luz para telefonar ao número de Swansea que tinha contactado Kate no dia 2 de Maio, foi utilizado para efectuar e receber chamadas na zona indicada nos documentos e nas fotografias que a porta-voz dos McCann abandonou debaixo do sofá no dia da fuga para Inglaterra.

Segundo os registos agora conhecidos, o telemóvel foi utilizado junto à Ribeira do Vascão em várias ocasiões, nomeadamente entre os dias 12 e o 15 de Maio de 2007 mas igualmente em Junho e Julho do mesmo ano. Chamadas telefónicas, as quais foram sempre efectuadas para Inglaterra ou para a Praia da Luz, excepto uma, efectuada para a embaixada britânica em Lisboa.

Duarte Levy

* Imagens de ilustração